quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Mulher Forte: Um navio e a mulher (Parte 2)

Salve Maria!

No post anterior, começamos a compartilhar com o leitor, alguns trechos de 17 Conferências feitas às Senhoras da Associação de Caridade, por Monsenhor Landriot Arcebispo de Reims. Versão da 10ª edição francesa por Alfredo Campos, Livraria Inernacional 1877.
O título das 17 Conferências é "A Mulher Forte". Uma ótima leitura para ajudar a todas as mulheres a compreenderem melhor ao chamado de Deus a cumprirem o seu valioso papel na família e ocupar o cargo de Rainha do Lar, dado pelo próprio Deus. Abaixo, a segunda parte da 4ª Conferência: Um navio e a mulher.

Continuemos, pois, na análise do nosso navio. 

Como se chama as árvores limpas de córtex, despidas de ramos e
de folhas que se elevam no meio dele? Três principais conto eu: servem de ponto de apoio ao cordame, ás vergas e a todo o aparelho da embarcação. Quando o barco tem os mastros partidos perde a força, luta mais dificilmente e está próximo da sua ruína. 

Do mesmo modo é necessário que a alma tenha pensamentos fortes, princípios sólidos que sejam uma como armação da vida moral, e não aplico este conselho somente em matérias religiosas, mas ainda em tudo quando pode interessar a vida humana, nos negócios temporais, e nas regras de conduta nas relações com os homens e as
coisas. Em tudo são necessários princípios, não princípios sistemáticos, porque o sistema é um perigo e uma causa de continuas imprudências, de faltas mais ou menos graves; são necessários princípios, que, sem saírem da linha da verdade, tenham bastante elasticidade para se prestarem a todas as exigências da sabedoria e da caridade. Eles convertem-se em pontos de apoio da existência, e mastros do navio humano; em volta deles grupam-se e ligam-se as idéias da alma, o conjunto dos seus projetos e resoluções, e os cabos e cordas variadas que compõem a rede da vida. 

Desditosa a alma que não tem mastreação! Porque não terá resistência nem poderá lutar no meio das contradições e das correntes opostas, e porque terá um movimento irregular e desordenado como o de uma embarcação que navega á mercê de todos os ventos contrários. 

Não basta ainda a mastreação, é necessário também um leme, - pequena peça de madeira meio oculta na água. O piloto, sem que isto se perceba, comunica-lhe um movimento que varia constantemente nos lugares difíceis, e a mobilidade do leme é a verdadeira força que conduz o barco, que lhe dá um impulso que pode variar a cada instante, e que lhe inclina a marcha em sentidos postos. O navio dirigido, assim, por mão hábil e inteligente, transpõe todos os escolhos, vence todas as dificuldades. 

A alma também deve ter o seu leme, isto é, um espírito de sabedoria, largo e esclarecido, que em um olhar abrace o horizonte, descubra as dificuldades da travessia e comunique á derrota a linha reta; que sem sair das vias da verdade e da justiça, possa desviar, segundo as circunstâncias, obliquar tanto para bombordo como para estibordo, e fazer da existência uma linha quebrada, composta de linhas retas. Será isto bastante para a condução do navio? Não, senhoras; a embarcação mais sólida, melhor equipada, mais provida de velas, com excelente mastreação e leme habilmente manobrado, poderia soçobrar depois de algumas horas ou de alguns dias de viagem. 

É necessário que o piloto conheça perfeitamente o estado dos mares
e das costas, a profundidade da água, a posição dos escolhos, dos bancos de areia, o sopro dos ventos e da direção das correntes; é necessário que tenha, mas bem a fundo, o conjunto de conhecimentos que constituem a ciência náutica. Além disto, uma carta minuciosa aonde tudo se ache consignado, para que saiba que em tal lugar encontrará uma costa perigosa, um cabo aonde o mar é furioso, um recife aonde facilmente iria abalroar, um baixio que lhe faria encalhar a embarcação e uma corrente que a sepultaria. 

Vós deveis ter também, senhoras, uma carta do mar, mais que todos, difícil e tempestuoso, o mar da vida. Eu me explico: conheceis, tanto quanto possível, o forte e o fraco do que vos cerca; não vos apoieis em certas praias, porque ireis de encontro a grandes rochedos, e desconfiai do desfiladeiro de homem ou das coisas, onde sois obrigadas a passar. Em tal lugar há correntes pérfidas, e, tanto mais, quanto menos se anunciam á superfície. Mais longe está um banco de areia. O que é um banco de areia? – perguntais vós. É o homem, é a mulher, é o caráter com o qual contáveis, talvez. Não vos apoieis nele, peço-vos; é um banco de areia sem solidez, o vosso baixel encalharia nele, e, uma vez encalhado, seria, talvez, difícil retirá-lo. Há naturezas de que não se desfaz a gente como se pretende, quando se está preso na areia sem fim; parecem-se muito com o estreito de Maumusson, onde os navios, tendo tocado o fundo, descem gradualmente e com uma força, cuja potência a lentidão não modifica. Vós contais tal praia, frequentais tal companhia e pretendeis que o vento vos é ali favorável. Engano, talvez: O vento sopra, é verdade, do vosso lado quando estais presentes; mas voltai às costas e pedi notícias a algum marítimo dedicado que permaneceu na praia, e ele vos dirá que as vossas palavras, os atos, a vossa própria recordação, tudo foi despedaçado por uma brisa fria e violenta. 

Que mais direi ainda? No mar há peixes guarnecidos de dentes que rasgam as carnes dos nadadores, surpreendendo-os no momento em que menos o pensam, porque estes seres malvados navegam sempre entre duas águas. Do mesmo modo há também caracteres que caminham sempre debaixo da água, para me servir de uma expressão de São Gregório de Nazianzo: - “Os armênios – dizia ele – não são nem simples nem francos, são absolutamente dissimulados e semelhantes aos rochedos que se escondem sob as águas do mar.” (Oraç. XLIII, nº 17) Vós não pensáveis talvez na existência destes peixes humanos, e só começais a suspeitá-la quando vos ferem com os seus dentes cruéis e tanto mais perigosos, quanto mais ocultos. Escondem-se no oceano, ou sob veludo, quando habitam a terra, porque estes seres são anfíbios. 

Volto, porém, ao nosso navio. Quereis comigo descer ao interior? Como tudo está admiravelmente disposto! Que sábia distribuição
! Que limpeza! Que bom arranjo na sala de jantar, na câmara e nos beliches! O capitão vigia tudo e tudo se faz em perfeita ordem. Nenhum embaraço da carga, nem a mínima alteração entre os passageiros; a equipagem é numerosa, mas obedece como se fora um só homem. 

Do mesmo modo a alma da mulher forte: visitai comigo os seus numerosos compartimentos; a sabedoria é o comandante do navio; tudo está em ordem, os pensamentos, os desejos, os projetos, as resoluções. O maquinismo interior funciona todo com maravilhosa
simplicidade, o vapor da imaginação é perfeitamente regulado, cada coisa está no seu lugar, e pode em verdade dizer-se que a principal beleza da alma consiste no seu interior: Omnibus gloria ejus ab intus. 

Que diferença quando a comparais com outras almas! Se fosse possível percorrer-lhes o interior com um archote na mão! Que câmara escura! Que desordem! Os objetos mais disparatados postos em monte, uns sobre os outros; os mais estranhos pensamentos a abalroarem-se, os desejos mais bizarros procurando aproximar-se; em uma palavra, a imagem da mais formosa desordem, da mais completa ausência de regularidade, podendo dizer-se que estão sempre ocupadas nos eu desarranjo. 

Não terminei ainda a explicação do texto: “A mulher forte converte-se num navio de um mercador, que traz de longe as suas riquezas”. Não basta que a embarcação seja graciosa e solidamente equipada, que tenha velas, mastros, vapor e um hábil piloto a bordo, conhecendo perfeitamente a derrota e o estado dos mares: é também necessário que se enriqueça. Bem vedes, o navio parte, vai á Índia, na América, e volta carregado de mercadorias. Assim a mulher forte deve também enriquecer a família pelos seus cuidados, atenção, economia e contínua vigilância: é isto o seu negócio, o seu comércio, as suas viagens. Tem-se visto muitos mercadores fazerem consideráveis fortunas com pequenos lucros; mas os grãos de areia amontoaram-se pouco e pouco, cada vaga foi trazendo alguns, e, a final a praia cobriu-se; a água da cisterna tornou-se considerável, e no entanto caiu gota a gota. 

A mulher pode também pelos cuidados, pela vigilância e pela severa economia chegar a admiráveis resultados; no fim de cada mês, ou mesmo de cada semana, pode entrar no porto da família com um carregamento inesperado. Mas, senhoras, na vida outra coisa há além do dinheiro. Quantas riquezas morais e intelectuais não pode recolher a mulher forte, em cada dia, nas suas relações com as almas, e, sobretudo, com as almas sérias e cristãs! Pode tirar
a nata ás conversações, ás leituras, aos discursos e fazer uma rica pirataria nos mares intelectuais; é nobre o ofício e perfeitamente honroso. E quando entrar na família, dar-lhe-á parte das suas riquezas, abrir-lhe-á o porão do navio, e todos os filhos correrão pra quinhoarem da carga, como a família dos mercadores que esperam uma valiosa carregação expedida da América, ou melhor ainda, como os pequenos peixes que se vêem a espreitar os navios que chegam, e lançar-se sobre eles, como sobre uma pressa a que tem algum direito. Assim, sobre todos os pontos de vista da riqueza material ou espiritual, a mulher forte é verdadeiramente como o navio de um mercador que traz de longe os seus tesouros. 


Um dos mais graciosos espetáculos que eu gozei na Rochelle, senhoras, foi o de ver, algumas vezes, nos meus passeios matinais, uma multidão de barquinhas saindo do porto e cobrindo o mar. Dir-se-ia que se enfileiravam em ordem de batalha contra o inimigo desconhecido que vinha desafiá-las, mas felizmente a flotinha só era dirigida contra peixes. Tinham um aspecto deslumbrante; os galhardetes, as cores variadas, as velas soltas, os movimentos e os
pequenos balanços das embarcaçõezinhas, tudo contribuía para atrair a vista. Estas flotinhas partem vazias, mas regressam com seus carregamentos de riquezas. Que elas sejam a vossa imagem, senhoras! Lanchas graciosas, saí em ordem de batalha! Ide à pesca das almas! Que o socorro material seja o anzol do vosso coração, e a alma de vossos irmãos o fruto da vossa santa e abençoada pesca! Ser-me-á sempre consolador e doce o ver-vos avançar assim, esperando-vos na praia, agradecendo a Deus o bem que tiverdes feito aos nossos queridos pobres, e rogando-Lhe que vos pague centuplicadamente.

Fonte: Salve Rainha

Veja também: A Mulher Forte: Um navio e a mulher (Parte 1)
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