terça-feira, 2 de agosto de 2016

A Mulher Forte: Um navio e a mulher (Parte 1)


Salve Maria, caros leitores!
Compartilhamos com vocês alguns trechos de 17 Conferências feitas às Senhoras da Associação de Caridade, por Monsenhor Landriot Arcebispo de Reims. Versão da 10ª edição francesa por Alfredo Campos, Livraria Inernacional 1877.
O título das 17 Conferências é "A Mulher Forte". Uma ótima leitura para ajudar a todas as mulheres a compreenderem melhor ao chamado de Deus a cumprirem o seu valioso papel na família e ocupar o cargo de Rainha do Lar, dado pelo próprio Deus. Abaixo, a primeira parte da 4ª Conferência: 


Um navio e a mulher! 


Vede aquele navio habilmente construído; é gracioso e sólido, e quando se lança sobre as vagas, munido de todas as velas, elegante e donairoso, é um dos ornamentos do oceano. De longe poderia ser tomado por uma ave gigantesca, que, com as asas abertas, adejasse



sobre a superfície líquida. Não basta que o navio seja gracioso; é necessário que seja solidamente construído para que se não desconjunte na primeira agitação, nem soçobre com a primeira rajada de vento. Mas escolheu-se a madeira para construí-lo; trabalharam-se com minucioso cuidado os materiais que se juntaram com toda a arte. Algumas vezes, quando a embarcação é de grande lote e tem de afrontar o mar largo, forra-se de cobre, para que possa resistir a todos os choques, e para que o ferro, depois de ter sofrido uma preparação elétrica, se não oxide ao contato da água. 

Maravilhosa imagem da mulher forte! 

Ela é graciosa como um navio bem construído: a sua palavra, os gestos, os modos, tudo tem a beleza e a elegância da embarcação.

Ela é o ornamento da família e da sociedade; nas reuniões de pessoas gradas apresenta-se como as yoles que se admiram no nosso porto, cuja história e origem se desejam conhecer. Ela é a aplicação viva da letra da Bíblia: A mulher graciosa encontrará a glória: Mulier gratiosa inveniet gloriam (Prov. XI,16). 

Mas a graça seria inútil, tornar-se-ia, até, perigosa, se não fosse acompanhada; assim a mulher forte é sólida como navio, o seu temperamento cristão é vigoroso, e ela pode resistir aos grandes mares, afrontar as vagas não respeitosas e continuar a sua derrota pelo meio delas; é forrada e cavilhada de cobre, isto é, de virtudes sérias, à prova do choque das paixões. Gosta de permanecer na onda salgada entre os perigos da vida, porque se conserva intacta, fazendo respeitar o pavilhão de sua família.


O navio tem numerosas velas, de todas as grandezas, de todas as formas e em todas as posições; tem-nas para qualquer direção do vento; desfranda-as com engenhosa arte e segundo as circunstâncias, e ora são todas soltas, perfeitamente pandas, apresentando um formoso quadro aos olhos do espectador, ora



parecem reservar-se produzindo-se somente em uma ordem, e conforme uma escolha determinada. Quando os ventos são contrários, a embarcação, inteligente, aproveita-os ainda no seu fim, manobra habilmente, parece desviar-se da sua derrota e corre por diferentes abordagens, forçando o vento espantado a tornar-se-lhe favorável. Em tempo seco, quando a calmaria no mar apresenta a imagem da imobilidade, a embarcação utiliza-se de um recurso que a ciência lhe põe à disposição; ascende as caldeiras, e agita-se um movimento desconhecido, e o mar é obrigado, no meio da sua surpresa, a abrir-lhe uma larga e rápida esteira.




A mulher forte também tem velas no espírito e no coração; possui uma multidão de recursos, que combinados com toda a honra, retidão e probabilidade, servem para a conduzir na direção sempre difícil dos negócios do mundo. Quando o vento é favorável navega com todas as velas, e deixa que o sopro da prosperidade a conduza ao porto suspirado, mas como sábio piloto põe os olhos no vento e não confia na fixidez das coisas deste mundo, como o marítimo na constância do oceano. Tanto que ela percebe uma modificação nos homens ou nas coisas, varia as suas combinações com a retidão de uma alma prudente, dispõe os meios para as conseqüências e arria as velas que seriam inúteis a até perigosas. Se o vento se torna absolutamente contrário, a mulher forte muda logo de orientação, dá outra posição ao barco, põe inteira confiança na vigorosa construção dele, tem a certeza da contextura sólida das velas, e, todavia, não é tão temerária que lute, face a face, com a tempestade. Adota uma posição média, em que se tomam as abordagens, em que se força o vento a cair obliquamente sobre as velas com ímpetos moderados, com força demasiado fraca para poder virar o navio, mas bastante poderosa para lhe poder dar um impulso, e fazê- lo ir precisamente aonde o vento não quereria ... Depois, se o vento cessa rapidamente e a derrota da embarcação é ameaçada de outro contratempo – a calmaria – a mulher forte recorre ao vapor, à energia da sua alma, ao vigor de um caráter rijamente temperado.


Quero dizer que a mulher com a finura do seu espírito, com a ductilidade do seu caráter, a flexibilidade da sua natureza, a perspicacidade da sua inteligência e a faculdade adivinhadora do seu coração, pode, quando põe todos os recursos á disposição da sabedoria e da virtude, livrar-se de todos os perigos, de todas as situações difíceis, e forçar, pouco e pouco, todos os elementos contrários a prestarem-lhe justiça e a auxiliá- la na sua viagem. Mas para conseguimento disto, senhoras, é necessário que pertençais a classe das mulheres fortes, na calmaria, e possuir-vos do vigor moral; é preciso que haja alguma coisa de viril no vosso caráter. A mulher perde demasiadas vezes o equilíbrio no meio da tempestade, e cai desfalecida; ou agita-se ela própria, e altera-se algumas vezes, mais tempestuosamente ainda que o mar.

Em tais violências ou prostrações o navio sofre sempre. Não nos cansamos em contemplar a graciosa embarcação. Tem ela uma qualidade muito preciosa e muito rara, qual é a de se bambolear sobre as vagas, a de ter uma força de elasticidade com a qual as segue: sobe com elas, com elas desce, e, todavia, prossegue na derrota. Ela gosta mais deste modo de avançar do que da luta, prefere a agilidade dos movimentos á violência que se precipitaria de contínuo, procurando cortar bruscamente as ondas.

Eu recomendo-vos, senhoras, - esta ciência do equilíbrio sobre as vagas, porque é a melhor das táticas, em muitas circunstâncias. Sim, o melhor, o mais seguro, o mais perfeito, é, muitas vezes, deixar as ondas no seu vai e vem, deixá-las bater o navio em todos os sentidos, e exclamar tranquilamente como o Profeta: “Meu Deus! É a vossa providência quem governa e abre a senda no meio dos mares, quem prepara uma via segura por sobre as ondas; mostrais assim que podeis salvar a gente de todos os perigos, ainda mesmo quando se embarca sem conhecimentos náuticos: Etiamsi sine arte aliquis adeat mare." (Sabedoria XIV, 3-4) Depois desta


oração do marítimo, o melhor, muitas vezes, é não fazer coisa alguma e esperar, seguir o movimento das vagas e não procurar mesmo contrariá-las. É preciso, sim, conservar com cuidado a destreza e imponderância que nos colocam sempre á superfície das vagas; é preciso nada perdermos dos nossos hábitos e das nossas convicções verdadeiras, e flutuarmos á mercê de Deus, esperando dias melhores. Nada aplaca tanto as ondas como este procedimento, pois elas acabam por compreender que nada ganham atacando certos navios, e resignando-se a sorte de não serem escusadas, acalmam-se muito mais facilmente. Uma piedade séria e profunda, enraizada na alma poderá dar-vos a destreza e a energia que luta tanto mais, quanto mais parece ceder. O que sobre este assunto parece tão simples, tão natural, tão necessário, é extremamente difícil. Custa muito ao amor próprio chegar lá; são necessários sacrifícios a todos os instantes, sacrifícios de idéias e de afetos; são necessárias imolações constantes, pois a vaidade julga-se ferida, atacado o caráter, e todas as susceptibilidades despertam ao mesmo tempo. Não, a natureza abandonada a si própria nunca produzirá tais efeitos, com quanto pareçam tão simples, tão fáceis, tão indispensáveis á felicidade; quando muito compreender-lhe-á beleza ideal; mas o amor próprio terá as suas revoltas e tornarse-á mau conselheiro, não quererá ceder, gostará mais de resistir e sofrer as conseqüências deploráveis da sua pertinácia. A verdadeira piedade, destacando-nos do humano, levantando-nos da terra e elevando-nos o caráter, predispõe-nos naturalmente para o estado vigoroso e forte do equilíbrio, em que a prudência é o nosso lastro, e em que os movimentos impetuosos do nosso amor próprio são contidos por uma sabedoria superior.

O navio tem ainda outro recurso: se o tempo está mau, lança


âncora, que é um grosso instrumento de ferro, recurvo para dois lados, em uma extremidade, e que anda suspenso nos flancos da embarcação. Em mares alterosos e perigos na derrota, arria-se a ancora. Esta massa desce ao mar, e, pelo peso, fixa o navio, convertendo-se em uma espécie de fundamento sólido, no meio dos abismos.

A alma deve ter também uma âncora, ou várias âncoras suspensas nos seus lares, para que, quando a tempestade estale, as lance nas profundidades do Ser divino, permanecendo imóvel, esperando a bonança. As âncoras da alma são de várias espécies, e sob este nome compreendo tudo quanto pode sustentar-nos e ficar-nos: -


princípios sólidos e vigorosamente estabelecidos, uma grande firmeza de caráter, amizades sérias e cheias de confiança, e, sobretudo, uma crença inabalável em Deus, uma energia de fé capaz de transtornar as montanhas. Tais são as verdadeiras âncoras para a alma, e nunca a corrente que as suspende se quebra quando é fabricada no céu. Eu suplico-vos, senhoras, para que, no meio das dificuldades da vida de família, no meio das alterosas vagas, que chegam subitamente e agitam o navio humano em todos os sentidos, peço-vos para que sigais o meu conselho: lançai âncora e permanecei assim! E que fazer depois? – me perguntais vós. Nada mais que sustentá-la e orar. Não é isto o que faz o nauta em pleno mar?

Todo o navio tem uma bússola. Com este pequeno instrumento o marítimo sabe onde está e as regiões a que se dirige, e pela agulha magnetizada conhece a situação da derrota do baixel. Os astros


podiam bastar-lhe em muitas circunstâncias, e a estrela polar é a melhor indicação para a direção ao norte, mas as nuvens cobrem muitas vezes o céu, e a cintilação das estrelas está oculta. Neste caso a bússola é indispensável, porque substitui a luz das alturas.


Pois na vida ainda é necessário ter uma bússola, um indicador celeste para se não andar caminho errado. A maior desgraça de muitas mulheres é não a terem tido em muitas circunstâncias da sua vida, e, sobretudo, na sua mocidade. Um dia estalou a tempestade e as trevas condensaram-se, e não sabendo aonde se dirigiam despedaçaram-se de encontro a uns escolhos. A melhor bússola da mulher será uma piedade esclarecida, e tão doce como firme; a luz da fé deve sempre iluminar-lhe a derrota, e no interior da alma deve ter uma prudência cheia de sabedoria, um instinto celeste, uma consciência reta que sirva para dirigi-la na marcha e para lhe indicar a verdadeira posição dos objetos. Com estas precauções, senhoras, não flutuareis á mercê de qualquer vento de doutrina, e sabereis que há derrotas que a mulher cristã não deve seguir, e que
há certos escolhos que devem ser evitados se não quer naufragar. A bússola pode ainda estender-se de outro modo: - há imaginações que a não têm, ou que as têm desorientada, e, neste caso, colocam o norte ao sul, o oriente ao ocidente, e não poucas vezes vêem os objetos invertidos. Perdem, de contínuo, o norte, para me servir de uma expressão marítima: nada tem de fixo, nada certo, ou antes, tem uma mobilidade perpétua, um reviramento de bordo, tão freqüente como inopinado, de modo que delas se pode dizer que só logram constância na inconstância. Que conselho a dar-lhes, uma vez que a religião os deve ter para todas as situações da vida e para todas as formas de caráter? Ser-lhe-á especialmente útil a prática da humildade; e uma profunda desconfiança de si próprias e das suas apreciações, uma sábia lentidão nos seus movimentos e resoluções servirão para prevenir numerosos perigos e impedir passos em falso. Eu aconselho-as, além disto, a fazerem-se rebocar por outra embarcação, munida de bússola e governada por um hábil piloto, a deixarem-se dirigir e conduzir por pessoas sábias e dedicadas, e a não fazerem coisa alguma sem prévio conselho. Deste modo suprirão, quanto é possível, a impotência natural, e sem esta indispensável precaução, o número dos seus naufrágios será incalculável. (continua...)

Fonte: Salve Rainha

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